Brasil faz história em competição de Biologia Sintética

iGEM 2017 – Um diário de bordo de uma aventura entre 09 e 13 de Novembro.

Eu cheguei na quinta-feira. Peguei um café e fiquei sentado em uma das mesas enquanto o pessoal da infraestrutura dava os últimos retoques. Fui observando cada uma das pessoas a entrar, entretidas conversando. Inglês, francês, chinês, alemão. Primeiro algumas dezenas, depois se tornaram centenas e logo eram milhares preenchendo o salão. O iGEM estava começando.

Foram cinco dias. No primeiro, as equipes chegaram dos mais diversos cantos do mundo, prepararam seus pôsteres e ensaiaram as apresentações. São, ao todo, 48 países divididos em mais de 300 equipes representados por quase 4000 estudantes de ensino médio, graduação e pós-graduação. Uma comunidade gigantesca espalhada por todos os cantos do mundo conversando num mesmo idioma: Biologia Sintética.

No segundo dia, na sexta-feira pela manhã, foi realizada a cerimônia de abertura. O iGEM é um evento peculiar – reúne num mesmo auditório os líderes do amanhã. A Biologia Sintética vai se tornar, em algumas décadas, tão presente em nossa vida quanto são os computadores hoje – e aqueles que escreverão essa história sentaram lado a lado. As equipes partiram então para as apresentações. Elas duram 20 minutos com 10 minutos de perguntas dos jurados, que já estudaram os trabalhos através das wikis (sites de acesso livre criados por cada grupo). As sessões são simultâneas, divididas de acordo com o campo de aplicação. Os times expõem seus trabalhos, ainda, nas sessões de pôster, que duram uma hora e meia e são realizadas no período da noite. Apresentações e pôsteres dominam a maior parte da programação de sexta, sábado e domingo.

É sempre um fim de semana de intensas trocas de experiência. Em um almoço, podem sentar lado a lado os pesquisadores de Gana trabalhando para combater o garimpo ilegal em seu país, alunos de Oxford desenvolvendo um dispositivo de diagnóstico para doença de Chagas e estudantes de Israel que sonham integrar palestinos ao seu grupo. É sobre criar soluções para o mundo, mas também sobre conectar as pessoas que desenvolvem estas soluções. Reunindo uma nova forma de se fazer ciência com o ímpeto de muitos dos jovens que estão construindo realidades completamente distintas em suas regiões, não é de se surpreender que o iGEM se tornou a grande força motriz do progresso em Biologia Sintética pelo mundo.

Não faltaram também convidados especiais. Estiveram presentes muitos dos grandes nomes do universo da Biologia Sintética. Jason Kelly, um dos primeiros participantes do iGEM e fundador da Gingko Bioworks, uma multibilionária empresa que oferece soluções para o desenvolvimento de linhagens e enzimas, discorreu sobre suas falhas e aprendizados em um painel sobre empreendedorismo. John Cumbers, fundador da SynBioBeta, entidade que congrega as indústrias do ramo e conecta ideias a pessoas que podem executá-las, incentivou os iGEMers a levarem suas criações para o mundo real. Nadine Bongaerts, co-fundadora do Science Matters e do Hello Tomorrow, reafirmou o papel do cientista na sociedade, conclamando a comunidade iGEM a espalhar o conhecimento que possui, oferecendo informação de qualidade aos cidadãos e balizando decisões de governantes.

E o Brasil, onde fica nesta história? Muito bem, obrigado. Esteve representado por três equipes:

  • USP – BioTrojan, que trabalhou com paratransgênese, criando ferramentas que viabilizam o desenvolvimento de linhagens engenheiradas para colonizar insetos vetores de doença, impedindo a transmissão do parasita (trabalho premiado com medalha de ouro);
  • Unesp Araraquara – Insubiota, que projetou um tratamento utilizando o probiótico Lactococcus lactis, visando a produção controlada de insulina no interior de pacientes portadores de Diabetes tipo I, uma alternativa às aplicações constantes e ao tratamento caro existentes hoje (trabalho premiado com medalha de ouro);
  • Amazonas (UFAM) – CRISPeasy que desenvolveu um kit de ferramentas tornando a utilização da poderosíssima ferramenta CRISPR/Cas9 mais padronizada e confiável, um importante passo para futuros trabalhos e que foi inclusive muito elogiado por Tom Knight, o pai da Biologia Sintética (trabalho premiado com medalha de prata).

Foram vários os trabalhos premiados nas 14 categorias em que se divide o iGEM. No entanto, era preciso apontar um grande vencedor, e todos os participantes se reuniram no auditório geral para assistir os melhores projetos do ano na segunda-feira. Na categoria ensino médio, o grande prêmio ficou com a equipe TAS Taipei, de Taiwan. Entre os grupos de pós-graduação, os selecionados para a grande final foram os holandeses da TU Delft e os alemães de Munich, ambos apresentando trabalhos combatendo o desenvolvimento de resistência a antibióticos. No fim, os representantes dos Países Baixos conquistaram o troféu. Entre as equipes de graduação, os selecionados para o grand finale foram os alemães de Heidelberg, os americanos de William and Mary e a equipe de Vilnius, na pequena Lituânia. Apresentando um trabalho permitindo o controle de sistemas engenheirados com múltiplos plasmídeos, o cobiçado troféu Biobrick foi para o pequeno país báltico.

Chegou, por fim, a hora de retornar para casa. Feliz com a melhor participação brasileira na história da competição. Com várias ideias para o futuro, como a parceria com um professor chileno para criar uma equipe pioneira no Uruguai ou uma nova amizade com um dinamarquês para alavancar os progressos no Sul do Brasil. Inspirado por uma comunidade em que não existem barreiras para se fazer ciência. O iGEM é uma grande janela para o futuro, para um mundo onde jovens sonham e sonhando criam soluções. Estes jovens hoje estão nas bancadas das principais universidades, nos púlpitos da ONU, nos escritórios de gigantes do mercado.

A revolução já começou.

Quer saber uma pouco mais sobre como foi o evento? Assista esse vídeo e sinta-se dentro do iGEM!


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