Ciência e Boteco: sim ou claro?!

Bares são locais de socialização. Ambientes propícios para conhecer pessoas e trocar ideias, se distrair da rotina e, claro, se divertir. No entanto, você já parou para pensar em quanta ciência pode ser encontrada nesse locais aparentemente improváveis? De discussões loucas cheias de porquês e decorações peculiares que inspiram a reflexão sobre os sentidos da vida, até a tecnologia existente por trás do balcão para aprimorar drinks e propiciar experiências únicas, tudo está conectado pela ciência.

Temática

Que tal entrar em um bar e ser servido com drinks em erlenmeyers e tubos de ensaio enquanto você tira uma selfie com o professor de química Walter White, da série americana Breaking Bad? Uma réplica bastante realista pode ser encontrada em um bar ousado de Belo Horizonte, o Ciência do Espeto.

Aberto em abril de 2017, na região da Pampulha, pelos amigos e sócios Arthur Hastings, Lucas Magalhães e Luiz Henrique Freitas Moreira, o bar traz como inovação a temática científica. A ideia tem atraído muito o público, que ainda encontra no local fórmulas químicas e físicas nas paredes do banheiros e diversos quadros com ilustrações contemporâneas de cientistas famosos como Darwin, símbolos matemáticos como o pi e alusões a organizações internacionais como a NASA, além de uma pitada de humor em desenhos que abordam conceitos como a evolução.

O ambiente permite uma conexão descontraída com o mundo da ciência existente à nossa volta e é ideal para amantes deste conhecimento ou curiosos sobre o que ele pode representar.

Mas esta não é a primeira vez que a temática científica é o cenário de um bar. Em Nova York, mais especificamente na rua de Chinatown, o Apothéke traz drinks cheios de originalidade em forma de “prescrição” através de uma gama de elixires com finalidades afrodisíaca, de saúde e para alívio de dores. As bebidas são um mix de líquidos e ervas preparadas em frascos de cristal por experts vestidos com jalecos. A decoração padronizada e a iluminação parcialmente escura ao som do clássico jazz pretendem relaxar o cliente em uma volta no tempo.

O nome de origem alemã se refere à farmácia e é combinado com um ambiente de ar “proibido” em alusão à época da Lei Seca Americana (1920 – 1933) em que a produção, transporte e venda de álcool foi proibido no território, sendo consumido em locais de estilo “speakeasy” (falem baixo). Com isso, o badalado bar vai além do incentivo à socialização, possuindo uma filosofia.

Prateleiras cheias de frascos de reagentes e medicamentos de todo o mundo no Apothéke Bar em Nova York, assim como seu slogan.

Há alguns quilômetros dali, em Cambridge, o Miracle of Science é apropriadamente localizado perto do MIT, um dos principais institutos de ciência e engenharia do mundo. O local dispõe de um cardápio baseado na tabela periódica e oferece opções de bebidas e grill, atendendo principalmente estudantes. O ambiente é simples e tranquilo, oferecendo um ambiente para interação e troca de ideias.

Menu em forma de Tabela Periódica do bar Miracle of Science, em Cambridge nos Estados Unidos. Foto: Scott Beale
Troca de ideias

Bares são ótimos ambientes para assuntos renderem discussões e possibilidades para projetos e parcerias, sejam pessoais ou profissionais. Questionamentos são levantados e compartilhados entre amigos e até mesmo desconhecidos, criando-se grupos de troca de ideias. Sendo assim, a forma como esses locais acabam sendo instrumentos de difusão de informação, de maneira leve e divertida, levou ao surgimento do primeiro festival oficialmente consagrado de incentivo à ciência no bar: o Pint of Science.

O nome por si só já é sugestivo. A palavra inglesa “pint” se refere a uma unidade de medida para líquidos, representando aproximadamente meio litro. A expressão é usualmente falada em bares para pedir um pouco de determinada bebida, sendo bastante popular e representando perfeitamente a analogia do evento.

Assim, em 2013, uma comunidade de estudantes, liderada por Michael Motskin e Praveen Paul, criou na Inglaterra um festival com duração de 3 noites, no qual cientistas se reunem em bares, cafés e restaurantes para conversarem com o público em geral sobre pesquisas e avanços na ciência. O festival ocorre de forma simultânea em diversos locais, e, em 2017, abrangeu 11 países e mais de 100 cidades, incluindo o Brasil.

O evento não possui custos e nem é necessário realizar inscrição ou esperar algum certificado. A ideia é reunir amantes da ciência para um bate-papo com pesquisadores sobre determinados assuntospara sanar dúvidas e agregar conhecimento. Cada cidade faz sua programação e aborda assuntos de interesse do público.

Dentre as 22 cidades brasileiras onde o evento foi realizado em maio deste ano, os tópicos foram principalmente relacionados às áreas de saúde, energias renováveis, ética, política e..bebidas!

Países onde o evento Pint of Science foi sediado em 2017, entre eles o Brasil.
Tecnologia e drinks

Agora, além de entrar em um bar que pode possuir uma temática científica ou um levantamento de discussões sobre ciência, imagine encontrar atrás do balcão do bar semelhanças com o que há por trás das bancadas de laboratório? A tecnologia se mostra presente em todos os cenários, de formas diferentes, e permite que bartenders também sejam um pouco cientistas.

Por exemplo, em diversos bares de São Paulo já podem ser encontrados drinks on taps, ou seja, coquetéis que já saem prontos de torneiras. De origem americana, a novidade assemelha-se ao que ocorre com chopes: a bebida é feita antecipadamente, fica armazenada em barris e é conectada às torneiras através de mangueiras.

O mais interessante é a utilização de nitrogênio líquido para que os drinks já saiam gelados. O nitrogênio fica armazenado em cilindros que também são conectados às mangueiras. Quando a mangueira por onde passa o nitrogênio entra em contato com a mangueira da bebida, ocorre uma troca de calor, onde o nitrogênio líquido “rouba” o calor, diminuindo a temperatura do drink rapidamente. Isso agiliza o serviço do bar, que entrega drinks gelados na hora para seus clientes, poupando tempo e esforço.

Cilindros de nitrogênio líquido utilizados em drinks on taps. Fonte: How Fancy Bars Are Using Science To Make Better Drinks – Business Insider

Uma outra ideia surgiu no Canadá. Devido ao frio intenso e dificuldades em encontrar determinados ingredientes frescos, alguns bares estão investindo na criação própria de ervas, frutas e vegetais em jardins localizados em seus telhados. É o caso do Little Jumbo, em Victoria, famoso por seus drinks com menta. Pensando nisso, os donos investiram em um sistema hidropônico, ou seja, um sistema de cultivo de plantas caracterizado por não necessitar de solo, apenas uma solução aquosa nutritiva, em quantidades adequadas, de forma a evitar o desperdício. A menta fica em um recipiente suspenso dentro de uma pequena estufa, onde recebe água e luz conforme temporizadores determinam. A praticidade e rentabilidade do sistema gerou a expectativa de cultivar mais ingredientes no futuro, como bálsamo e tomilho, para também serem usados em coquetéis, que ficariam ainda melhores.

Cultivo hidropônico de menta em bar do Canadá. Fonte: How Fancy Bars Are Using Science To Make Better Drinks – Business Insider

Um instrumento bastante visto em laboratórios também tem estado presente por trás de bons drinks em bares. A centrífuga basicamente é utilizada para separar componentes de uma mistura por meio de diferença de peso. Em Nova Iorque, um bar tem utilizado este equipamento principalmente para elaborar sucos clarificados, removendo a turbidez do líquido. Quando acrescentados aos drinks, os sucos clarificados os deixam mais saborosos e agradáveis, com um aspecto mais espumoso, retendo o gosto no paladar por mais tempo.

Centrífuga que separa ingredientes utilizados em drinks servidos em um bar de Nova Iorque. Fonte: How Fancy Bars Are Using Science To Make Better Drinks – Business Insider

Muitas destas tecnologias são utilizadas por diversos bartenders pelo mundo que reúnem-se anualmente no festival “Science of Cocktails” para mostrar seus talentos em um show que apresenta a biologia, química e física por trás de drinks bastante modernos. Arte e ciência se unem em um evento beneficente onde o objetivo é arrecadar fundos para que alunos de escolas menos favorecidas possam viajar para conhecer o Science World, uma organização britânica de difusão de conhecimento científico. O próximo será em fevereiro de 2018, em Vancouver no Canadá. E aí, vamos?

Imagem de divulgação do evento “Science of Cocktails”, realizado anualmente pelo mundo com o objetivo de incentivar a ciência.

E aí, você imaginava o quanto a ciência poderia estar atrelada ao boteco de todo dia? Já foi em algum bar e se deparou com algo do universo científico? Conta pra gente!

Referências:

Carlos Bernardo da Cruz Santos (2015). Cultivo hidropônico: uma prática eficiente e de alta rentabilidade. Acessado em 31/10/2017. Disponível em: http://www.esalq.usp.br/cprural/boapratica/mostra/97/cultivo-hidroponico-uma-pratica-eficiente-e-de-alta-rentabilidade.html

Camper English, Popular Science (2013). How Fancy Bars Are Using Science To Make Better Drinks. Acessado em 31/10/2017. Disponível em: http://www.businessinsider.com/bars-are-using-science-to-make-better-drinks-2013-12#

Mariana Palacios Vega (2015). The Science Behind Cocktails. Acessado em 13/12/2017. Disponível em: https://www.thenewyorknightlife.com/blogs/news/31245441-the-science-behind-cocktails

Jennifer Che (2009). Miracle of Science. Acessado em 13/12/2017. Disponível em:  http://www.tinyurbankitchen.com/miracle-of-science/

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