Por que (e como) ser um biotecnologista politicamente ativo

A biotecnologia não é só multi quanto às áreas do conhecimento envolvidas em sua produção. Nossa atividade também perpassa diversas áreas da sociedade que são reguladas por vários entes estatais. Para ilustrar o que queremos dizer, vamos usar de exemplo a rota dos profissionais geradores de biotecnologias que todos nós conhecemos: os professores universitários.

Esses trabalhadores têm sua atividade regulada em nosso país pelo Ministério da Educação (MEC), e também produzem ciência, que é regimentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Quando um deles percebe que pode emergir uma biotecnologia da sua pesquisa, esse começa a estudar sobre como proteger sua criação: se for um caso patenteável, o professor deposita seu pedido no Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Sua ideia parece viável e frutífera, então por que não produzi-la? Ele procura abrir sua empresa, correndo atrás de toda a papelada necessária em um Cartório de Pessoa Jurídica. Contudo, dependendo do seu produto, esse deve ter seus efeitos potenciais avaliados: quanto à saúde humana, é examinado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), do Ministério da Saúde (MS);  quanto ao meio ambiente, a verificação é feita pelo  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), para que seja enfim comercializado.

Nesse exemplo, torna-se claro o desafio que é produzir biotecnologias. Para que seu produto, processo ou serviço se torne utilizável, o biotecnologista deve passar pelos processos burocráticos de cada um desses órgãos, atendendo a cada um dos requisitos exigidos nesses setores. Por conta disso, a soma de ineficiências encontradas nesse percurso representa grande embaraço para um país que deseja ser um expoente biotecnológico.

Além disso, cada nova atividade biotecnológica demanda adaptações significativas na forma em que cada um dos setores da sociedade são organizados e regulados. Basta que vejamos toda a legislação e os órgãos especiais que foram criados para conduzir a avaliação de transgênicos no Brasil.

Até mesmo a construção de nossos cursos representa novos desafios à educação superior: a necessidade de reunir docentes de diferentes institutos e departamentos para a construção de um currículo coeso; gastos com novas instalações e equipamentos para aulas práticas especializadas; reconhecimento de cursos no Ministério da Educação, e por aí vai.

Foto: Drew Hays/Unsplash

Esses dois fatos, “a biotecnologia é afetada por decisões políticas de diversas áreas de forma agregada”, e “a biotecnologia representa novidades para as quais a estrutura política ainda precisa se adaptar”, ilustram a nossa dependência de decisões políticas para o pleno exercício de nossa profissão.

Em consequência, nos deparamos com a clara afirmação: se nós, biotecnologistas, queremos exercer plenamente nossas atividades, concretizando nossos conhecimentos na forma de produtos, processos e serviços inovadores, e assim sendo parte relevante da economia nacional, precisamos desenvolver como classe profissional uma vida politicamente ativa.

A regulamentação da profissão de biotecnologista já nos serve como um bom exercício para que seja incutido em nós, e nos futuros biotecnologistas, um senso de participação política em prol de nossos interesses particulares e do desenvolvimento tecnológico do nosso país.

Contudo, isso é somente o início. Ainda há leis, decretos, portarias de Ministérios e resoluções de Conselhos e agências governamentais que nos impedem de exercer diversas atividades para as quais somos capacitados.

Mais, devemos fazer pressão para que processos burocráticos referentes às nossas atividades sejam ágeis e eficientes; para que sejam garantidos investimentos na educação, ciência e tecnologia; para que se diminuam as barreiras ao empreendedorismo biotecnológico inovador, como impostos sobre importação de equipamentos e materiais científicos, e a tributação sobre investimentos em startups por investidores-anjo.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado.

Afinal, o que temos de fazer para sermos biotecnologistas politicamente ativos?

1. Saiba o que está acontecendo

Procure formas de obter notícias sobre decisões políticas relacionadas à biotecnologia no Brasil. Acompanhe jornais, revistas científicas, sites e páginas em redes sociais de órgãos legislativos e de fomento à pesquisa, agências reguladoras, ministérios, secretarias estaduais, universidades, e claro, nosso blog. Também é possível criar alertas no Google para que você seja notificado acerca de decisões políticas em setores de grande influência sobre a produção biotecnológica.

2. Procure por grupos de mobilização local (ou construa um)!

Já contamos no Brasil com grupos de mobilização política em prol de nossa profissão, como a LiNABiotec e o Movimento Biotecnologia Brasil. Procure contatar e acompanhar esses grupos através das páginas em redes sociais.

Além disso, construa grupos de difusão de informações. Em grupo, é mais provável de se obter notícias e informações acerca de movimentações políticas importantes, além de facilitar a mobilização para ações políticas, como manifestações e presença em audiências públicas.

3. Seja um propagandista dos biotecnologistas!

Para que a sociedade e os políticos se mobilizem para viabilizar nossa produção científica e tecnológica, esses grupos precisam saber e entender os potenciais benefícios de nossas atividades e da suficiência de nossas competências. Por isso, não hesite em ser um propagandista da nossa classe! Explique às pessoas para que serve nossa formação, os problemas que já foram solucionados no mundo graças à biotecnologia e o que pretendemos desenvolver no futuro.

Além disso, a política vai além de nossa interação com o Estado. Precisamos demonstrar nossas capacidades também ao setor privado. A partir do trabalho de cada um de nós, empregadores colhem informações acerca de toda a nossa classe profissional. Por isso, demonstre profissionalismo e faça uso pleno de todas as suas competências e habilidades. Desse modo, você colabora para a construção de uma excelente reputação para nossa profissão e abre caminho para que outros biotecnologistas se insiram com maior facilidade no mercado de trabalho.

É importante salientar que empresários compõem grupos importantes de influência na política brasileira. Conquistar o apoio do setor privado para as pautas de nossa classe pode ser fundamental para que elas se concretizem no setor público.

4. Empreenda!

Uma das formas mais eficientes de convencermos a sociedade da importância de nossas atividades é botar a mão na massa. Assim provaremos de forma irrefutável que somos capazes de construir empreendimentos biotecnológicos bem-sucedidos, que empregam pessoas, e que produzem produtos, processos e serviços de grande benefício social.

5. Escolha bem em quem votar, pressione quem foi eleito e candidate-se!

Uma ação de grande efeito é a escolha de políticos favoráveis à produção científica, tecnológica e à educação do Brasil, e que façam uso de dados científicos para guiar políticas estatais. Procure por candidatos com propostas desse tipo, e avalie o histórico político para verificar a participação deles em projetos de lei e na construção de políticas voltadas para essas esferas da sociedade.

Além disso, cientistas do mundo todo já têm percebido a necessidade de estarem presentes diretamente na política. E no caso dos biotecnologistas, nossa multidisciplinaridade e visão ampla das condições de diversos campos econômicos importantes também nos dá condições para o exercício político direto de qualidade. Por isso, que tal se candidatar?

Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

É impossível ignorar o quão crucial é sermos politicamente ativos. Somente agindo desse modo conseguiremos viabilizar o exercício pleno da nossa profissão e o uso máximo de nossos conhecimentos para contribuirmos ao desenvolvimento econômico do país.

Deseja começar a pôr em prática as ações que propomos? Utilize nosso espaço de comentários no Facebook para encontrar outros biotecnologistas engajados, construir grupos de mobilização política locais e até mesmo para propor outras formas de ação! Assim, veremos com nossos próprios olhos o que nossa coesão política é capaz de gerar.