A Revolução “Faça Você Mesmo” da Biologia

Jonas chegou da aula de Biologia e estava inquieto: ao ouvir falar do DNA e de como guardava tantos segredos, queria fazer algo para tentar ver esse tal de código da vida, porém em sua escola não existiam laboratórios e aulas práticas.

Aquilo martelou sua cabeça tanto que não conseguiu dormir, então levantou da cama e ligou o computador, foi direto para o Youtube pesquisar como poderia ver a molécula e encontrou o canal do Manual do Mundo. Ao clicar no vídeo, percebeu que poderia fazer um experimento em sua casa, com materiais de baixo custo, e finalmente ver o DNA.

Olha a cara de alegria do Jonas ao ver o DNA pela primeira vez.

Essa história pode acontecer em qualquer parte do mundo, mas você sabe como começou esse movimento de tentar fazer as coisas em casa por tentativa e erro, não se importando tanto com o produto final, mas sim com a experiência de tentativa?

Origens

Em 1950, após a guerra da Grã-Bretanha, os jovens estavam inquietos e queriam tocar suas músicas, porém era difícil encontrar instrumentos para comprar. Logo, a necessidade e a criatividade se uniram e eles começaram a construir instrumentos e tocar músicas do estilo skiffle (um mix de jazz\folk\blues).

Para isso, eles se uniam e se ajudavam sem competição, tudo na filosofia de parceria coletiva. Aos poucos, esse movimento foi crescendo e se espalhou pelo mundo com nome de do-it-yourself (“faça você mesmo”).

Capa de uma das principais referências nesse movimento.
DIY Bio

Uma das primeiras áreas a utilizar os conceitos do “faça você mesmo” foi a da computação, na qual várias pessoas em suas garagens, com apenas um computador, conseguiam criar projetos originais e ficaram conhecidos como cultura hacker, um movimento de livre circulação de informações e tecnologia.

Com o barateamento dos custos de eletrônica e computação, a área de biologia começou a se apropriar desse termo e criou um novo conceito de hacker, que busca criar seus próprios equipamentos e protocolos de livre acesso,  logo o termo faça-você-mesmo é cada vez mais utilizado, vindo da sigla DIY (do-it-yourself) que ao focar nas ciências da vida ficou conhecido como DIY bio e a união da cultura hacker com a biologia se transforma em biohacker.

O objetivo principal do movimento DIY Bio é democratizar ciência e tecnologia, principalmente a biotecnologia, que muitas vezes fica restrita a poucas pessoas e empresas. Outro ponto é o melhor aproveitamento das tecnologias utilizadas e ampliação do número de experiências possíveis com menos recursos.

Principais componentes do mundo faça você mesmo na biologia. Adaptado de COGEM/Waag Society, 2014. Link para a original na imagem.

Os três principais grupos do DIY Bio são: Grupos focados em fazer experimentos para encontrar soluções de problemas como descobrir a identidade de cachorros que fazem fezes em locais indevidos;  equipes focadas em desenvolver e baratear equipamentos e democratizar protocolos de experimentos para que qualquer pessoa interessada possa usar; e pessoas focadas em modificações corporais tecnológicas, como as que adicionam pequenos chips em sua pele.

Exemplo de chip inserido na pele.
Por todo o mundo

Na Europa e Estados Unidos, já existem alguns laboratórios abertos ao público, como o  GenSpace, onde qualquer pessoa, mediante uma taxa mensal para ajuda na manutenção do laboratório, pode aprender sobre biossegurança e depois realizar experimentos com microbiologia, biologia molecular e bioarte.

Algumas empresas têm como objetivo facilitar os experimentos biológicos, como a Odin, que fornece equipamento e reagentes para tornar a engenharia genética mais acessível. Outro incrível exemplo vem da BentoLab, na qual criaram um kit de extração, amplificação e visualização do DNA que pode ser levado a qualquer lugar.

Alguns projetos se destacam nesse sentido de protocolo aberto, como o Post/Biotics, no qual pesquisadores desenvolveram um kit para ser levado para casa, com o qual qualquer pessoa pode testar substâncias que encontrar para saber se possuem atividade antimicrobiana e compartilhar seus resultados em um aplicativo para posterior validação.

Kit de engenharia genética da empresa The Odin.
E o Brasil?

No país, por questões financeiras, a maior parte dos laboratórios abertos ao público é ligada a universidades, no modelo de aproveitamento de espaço.

O Brasil conta com algumas iniciativas como o Garoa Hackerspace em São Paulo e o Olabi Makerspace no Rio de Janeiro. O foco destes espaços é a resolução de problemas cotidianos utilizando soluções de baixo custo, como a Prometheus Science, que criou um equipamento para microscopia de fluorescência com menos de 400 reais.

Um dia de colocar a mão na massa no Olabi MakerSpace.

É perceptível que esse movimento tem ganhado cada vez mais adeptos e acreditamos que o Brasil terá mais espaços para fazer da ciência e biotecnologia algo mais presente no nosso dia a dia.

Depois de vermos como o Jonas se sentiu realizando um experimento e matando sua curiosidade, porque você não vem fazer parte do time de biohackers?

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