Com certeza você já parou para escutar uma música e começou a viajar por diversas dimensões, imaginando as situações mais diversas possíveis e até impossíveis. As canções nos permitem expressar a felicidade plena ou colocar toda a tristeza para fora. É simplesmente fenomenal quando a alma entra em ressonância com as notas musicais e tudo se torna único e especial.
Além disso, a música nos permite vivenciar momentos passados que tiveram importância pessoal. A partir de alguns estímulos, a frequência musical desperta no cérebro memórias, o que nos permite reviver tais circunstâncias.
Mas como ocorre toda essa interação? Como uma simples onda vibracional pode desencadear tantos comportamentos diferentes e individuais?
O que você sabe influencia o que você ouve
Quando você vê uma imagem com borrões, pontos e rabiscos, o seu cérebro tenta interpretá-la comparando memórias que você possui com a fotografia desconhecida. Para te provar, preste atenção na figura abaixo:
De primeira, parece ser complicado interpretar, mas após alguns segundos, você é capaz de enxergar nitidamente dois pontos principais: um cachorro e um jardim com uma árvore. Em um nível subconsciente, a sua mente trabalha para comparar os padrões de um cachorro antes visto com os padrões da figura. Uma vez que essa analogia se encaixa, tudo passa a fazer sentido.
Com a música não é diferente. Quando uma sequência de sons alcança os ouvidos, diversos sinais neuronais específicos são transmitidos ao cérebro, que, por sua vez, tenta encontrar padrões e ordem em tantas informações. Quando sentimos apreço por uma música, nosso cérebro foi capaz de processar e prever o milésimo de segundo da música que viria após o recebimento da informação. Ficou confuso? Aqui vai um exemplo hipotético.
Imagine que você está ouvindo Paradise, do Coldplay, e chegou aos seus ouvidos os 5 primeiros segundos da música. Instantaneamente diversos processamentos ocorrem no seu cérebro para identificar padrões para prever os próximos segundos. Caso tenha sucesso na predição, você irá adorar a sonoridade. Em outras palavras, o que torna a música agradável para nós é a assertividade nas expectativas criadas. E quanto mais ouvimos, mais alimentamos nossa memória musical.
Bioquímica da música
Segundo estudos publicados pela Harvard Medical School, a música ativa diversas partes e conexões do cérebro, sendo responsável também por despertar regiões de memória.
As ondas sonoras, ao entrarem pelos ouvidos, causam vibrações que são convertidas em sinais elétricos. Esses sinais são transmitidos pelos nervos sensoriais até o cérebro, onde se dispersam para ativar o córtex auditivo e muitas outras variadas partes cerebrais. Um dos primeiros e principais efeitos dessa dispersão é a liberação de um neurotransmissor chamado dopamina.
A dopamina é o neurotransmissor do prazer. Ela é produzida principalmente pela substância negra do cérebro e, além de produzir a sensação de felicidade, também está relacionada ao controle de movimentos, humor, emoções e desenvolvimento cognitivo. Sua desregulação, por outro lado, está envolvida com o aparecimento de transtornos como a doença de Parkinson e a esquizofrenia.
O segundo componente amplamente liberado quando você ouve uma música é a serotonina. Este neurotransmissor é produzido pelo sistema nervoso central, tendo como principais funções modular o humor e desenvolver a cognição, a memória e o aprendizado.
Para provar que a música que gostamos nos torna mais felizes, um estudo realizado pela Symphony Central Coast concluiu que as pessoas que apreciam música clássica são mais propensas a produzir dopamina e serotonina enquanto ouvem o estilo musical preferido em comparação a qualquer outro tipo musical.
Benefícios da Música
Existem algumas formas com que a música pode afetar sua memória. Recentemente, um estudo publicado na National Library of Medicine avaliou a diferença no cérebro de músicos e de não músicos. Os pesquisadores descobriram que, nos músicos, há maior presença de matéria cinza na parte frontal do córtex, região conhecida pelo armazenamento das conexões neurais responsáveis por diversos aspectos da memória.
Dois estudos recentes, um estadunidense e um japonês, descobriram que a música é capaz de criar novas memórias, além de ajudar a recuperar memórias armazenadas. Em ambos os estudos, idosos saudáveis pontuaram melhor em testes de memória e raciocínio após terem completado várias aulas semanais nas quais faziam exercícios físicos moderados com acompanhamento musical.
Além disso, pesquisadores do Laboratório de Música e Neuroimagem do Beth Israel Deaconess Medical Center desenvolveram um método útil para que pessoas que sofreram derrame ou lesão em regiões do cérebro responsáveis pela fala pudessem ter menos dificuldade na hora de se expressar oralmente. Segundo eles, a chave para uma boa recuperação seria cantar.
Por fim, uma ótima forma de guardar o que você está estudando é, para aqueles que não perdem a concentração, escutar uma boa música enquanto realiza esta tarefa. Dessa forma, seu cérebro é capaz de unir as memórias, a de estudo e a musical,e, quando for necessário expressar o aprendizado adquirido, você primeiro se lembrará da música e, com base nela, despertará um conhecimento profundo sobre tudo que leu.
Obviamente, esta técnica de estudo não funciona para todo mundo. Isso porque nosso cérebro tem formas diferentes de se concentrar e memorizar uma situação.
Com isso, fica evidente que a música pode auxiliar em vários aspectos da vida, sendo uma grande aliada em diversos momentos, principalmente quando estão relacionados à expressão de sentimentos e à geração de memórias marcantes.
Cite este artigo:
ENRICI, A. W. A Biologia da Música. Revista Blog do Profissão Biotec. V. 11, 2024. Disponível em: <https://profissaobiotec.com.br/biologia-musica>. Acesso em: dd/mm/aaaa.
Referências
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JAKUBOWSKI, Kelly. Why Does Music Bring Back Memories? Neuroscience News. Disponível em: https://neurosciencenews.com/music-memory-22756/. Acesso em: 18/06/2023.
MAGSAMEN, Susan. How Music Affects Your Brain. Time. Disponível em: https://time.com/6275519/how-music-affects-your-brain/. Acesso em: 18/06/2023.
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