O filme “Avatar” é recheado de ciência e biotecnologia que nos traz reflexões sobre as conexões entre natureza, ética e tecnologia.

Desde o seu lançamento em 2009, “Avatar” cativou o público com sua narrativa envolvente e visuais deslumbrantes. Dirigido por James Cameron, o filme transporta os espectadores para Pandora, um mundo exuberante e repleto de vida, habitado pelos Na’vi. Porém, além de sua trama fascinante, “Avatar” também ecoou na comunidade científica, ao explorar temas de interconexão, preservação ambiental e do potencial da biotecnologia e suas aplicações em um ambiente extraterrestre. Essa obra cinematográfica destacou como a ciência informal pode inspirar  a pesquisa científica.

Problema ambientais em Pandora

Pandora é um local com grande biodiversidade, apresentando um ecossistema interligado e uma riqueza de formas de vida. A trama de “Avatar” gira em torno da exploração desenfreada dos recursos naturais de Pandora por parte dos humanos, ameaçando a existência dos Na’vi e o equilíbrio do ecossistema. Essa narrativa serve como um alerta sobre os impactos negativos da exploração ambiental predatória em nosso planeta.

Pandora

A floresta de Pandora, representando a biodiversidade deste local. #ParaTodosVerem: a imagem mostra duas silhuetas em pé, em frente a uma floresta de árvores com elementos bioluminescentes gigantes, que emitem uma luz roxa. Ao fundo, várias criaturas voadoras emitem uma luz azul. Fonte: Uníntese

O filme retrata as consequências devastadoras do desmatamento, da mineração ilegal e da poluição, elementos que também representam desafios urgentes para a Terra. A busca desenfreada por recursos naturais sem considerar a sustentabilidade ambiental coloca em risco a biodiversidade, os recursos hídricos e a própria saúde humana.

Engenharia genética e Avatares

No universo de Avatar, a engenharia genética transcende os limites da ficção científica, tornando-se a pedra angular da conexão entre humanos e Na’vi. Através da criação de avatares, corpos Na’vi geneticamente modificados são controlados por humanos através de uma interface neural. Essa tecnologia inovadora, embora distante da realidade atual, abre um portal para reflexões profundas sobre a ética da biotecnologia e os limites da manipulação da vida. A interface neural que conecta humanos e avatares em Pandora é um conceito que começa a ganhar forma no mundo real, com empresas como a Neuralink desenvolvendo chips implantados no cérebro para permitir a comunicação direta entre o órgão e dispositivos externos. Embora ainda em estágio experimental, essas tecnologias demonstram o potencial de conectar mentes humanas a máquinas de forma cada vez mais profunda, assim como ocorre em “Avatar”.

Avatar

Interação entre Avatares e a tecnologia genética. #ParaTodosVerem: Jake Sully, protagonista do filme, em seu corpo de avatar, com pele azul e características humanoides, está sentado em uma mesa de exame em um ambiente futurista. Ao fundo, dois profissionais de saúde, vestidos com trajes brancos, máscaras e luvas, observam e interagem com o avatar em um laboratório de alta tecnologia. Fonte: Flickr.

No filme, os Avatares são utilizados como ferramenta para a exploração de Pandora e seus recursos naturais. Essa abordagem instrumentaliza a biotecnologia, desconsiderando o valor intrínseco da vida e as relações complexas que sustentam o equilíbrio do ecossistema de Pandora.

Todavia, a engenharia genética também possui potencial para o bem, tanto na narrativa de “Avatar” quanto na realidade da Terra. No mundo real essa técnica abre portas para possibilidades quase ilimitadas na área da medicina, por exemplo. Esse campo de atuação contribui para o desenvolvimento de terapias inovadoras para doenças genéticas, na regeneração de órgãos danificados e no aprimoramento de transplantes.

Sendo assim, é crucial que o avanço da biotecnologia, seja guiado por princípios éticos e pela busca por soluções que beneficiam a humanidade e o planeta de forma sustentável.

Neurociência: as conexões no filme

“Pandora é um organismo vivo, um ser único. E cada criatura, cada planta, cada pedacinho de terra está conectado a tudo o mais, de uma maneira que nós nem sequer começamos a entender. A rede neural do cérebro humano é complexa, mas não se compara à rede de vida que existe aqui.”

Nessa mensagem, dita pela Dra. Grace Augustine, chefe do Programa Avatar, a personagem sugere que Pandora possui um sistema interconectado de vida muito mais intrincado e profundo do que qualquer coisa que já encontramos na Terra, incluindo a complexa rede neural do cérebro humano. A interconexão se manifesta na bioluminescência das plantas, na comunicação telepática dos Na’vi com os animais e na própria força vital que permeia toda a lua. Através da Árvore das Almas, os nativos se conectam de forma neural com outros seres vivos e com o próprio planeta, formando uma rede de comunicação complexa interdependente.

Neurociencia

A complexa rede neural do cérebro humano.  #ParaTodosVerem: a imagem mostra um desenho de um cérebro humano, com destaque para as conexões neurais, que são representadas por linhas brilhantes que se conectam entre si. À direita, um neurônio, com seus dendritos, axônio e núcleo, é destacado em um círculo, mostrando a estrutura microscópica dessa célula. As linhas brilhantes representam os impulsos nervosos que se propagam por todo o sistema nervoso. Fonte: iStock

A citação captura a essência da filosofia central de “Avatar”: o profundo respeito pela natureza e a interconexão de todos os seres vivos. Essa biocomunicação ficcional apresenta similaridades com pesquisas científicas que exploram a comunicação entre animais e plantas. Estudos demonstram que diversos organismos possuem mecanismos sofisticados de trocas de informações, utilizando sinais químicos, elétricos e até mesmo vibrações.

A biocomunicação abre um leque de possibilidades para compreensão da vida em suas diversas formas e para o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e interação com o ambiente. No entanto, é importante ressaltar que a exploração dessa área deve ser feita com cautela e respeito, preservando a integridade dos ecossistemas e a autonomia dos seres vivos.

Relação entre ciência, natureza e ética

O universo de “Avatar” nos convida a uma profunda reflexão sobre a relação complexa entre ciência, natureza e ética. Através da ficção científica, podemos explorar os limites da biotecnologia, os impactos da exploração ambiental e a importância de um desenvolvimento sustentável.

É importante que a ciência e a tecnologia estejam a serviço da humanidade e do planeta. Entretanto, é crucial que o avanço da biotecnologia seja acompanhado por um debate público amplo e transparente, que considere as implicações éticas, sociais e ambientais de suas aplicações. Devemos garantir que os benefícios dessa área da ciência sejam acessíveis a todos, sem comprometer a preservação da biodiversidade e o bem-estar das futuras gerações.

O futuro da humanidade está intimamente ligado à nossa relação com a natureza. É fundamental que aprendamos a viver em harmonia com o meio ambiente, utilizando a ciência e a tecnologia de forma responsável e sustentável. “Avatar” nos oferece um lembrete inspirador sobre a importância de proteger nosso planeta e construir um futuro mais justo e equitativo para todos.

Perfil de Bianca Rocha

Texto revisado por Natália Lopes e Jennifer Medrades

Cite este artigo:
ROCHA, B. Z. D. Pandora e além: biotecnologia em “Avatar”. Revista Blog do Profissão Biotec, v. 11, 2024. Disponível em: <https://profissaobiotec.com.br/pandora-e-alem-biotecnologia-em-avatar/>. Acesso em: dd/mm/aaaa.

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