Quem já está há algum tempo na carreira científico-acadêmica sabe que a jornada profissional de um pesquisador raramente apresenta o formato de uma linha reta. Para ser mais realista, na maioria dos casos, nossas carreiras estão mais próximas mesmo de um emaranhado, repleto de idas e vindas, altos e baixos, períodos de frustração e momentos de sucesso.
O caso de Josiane Trevisol não é diferente: foi cerca de um ano e meio de muita dedicação e expectativa, desde que ela ficou sabendo do Prêmio Jovem Pesquisador Promega, até o momento de embarcar para os Estados Unidos.
Segundo a Promega, este prêmio foi criado para reconhecer e incentivar o trabalho dos pesquisadores brasileiros em início de carreira, através de uma imersão internacional de alto nível, com treinamentos práticos e networking. O objetivo é expandir os horizontes desses pesquisadores, possibilitando novos aprendizados, trocas, e um senso de otimismo – tanto a respeito suas trajetórias pessoais, quanto sobre o futuro de suas respectivas áreas.
A seguir, Josiane conta um pouco para a gente sobre como foi toda essa experiência, e oferece algumas orientações e recomendações para você que tem interesse em participar da segunda edição do Prêmio, que está com as inscrições abertas.
[Profissão Biotec]: Oi, Josiane! Tudo bem? Poderia começar contando um pouco sobre você?
[Josiane Trevisol]: Olá! Tudo bem! Então, eu sou gaúcha, nascida em Porto Alegre. Em 2013 iniciei o curso de Biomedicina na Ulbra/Canoas, onde consegui conquistar uma bolsa Prouni. Em janeiro de 2018, me formei e em março deste mesmo ano já iniciei o Mestrado em Ciências da Saúde, com ênfase em Epidemiologia e Métodos Diagnósticos pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Foi no mestrado que iniciei o projeto vencedor do Prêmio Jovem Pesquisador. Estudei fatores de virulência de Streptococcus pneumoniae utilizando um modelo animal alternativo, larvas de Galleria mellonella, um invertebrado que é uma praga na apicultura. Atualmente, sou Doutoranda em Infectologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), fazendo parte da equipe do Laboratório ALERTA.
[PB]: Quando e como você ficou sabendo do Prêmio Jovem Pesquisador Promega?
[Josiane]: Eu estava no processo de me aprofundar no entendimento da técnica de PCR em tempo real, pois usaria no meu mestrado, e comecei a assistir videoaulas. Com isso, cheguei em um canal no Youtube chamado Universo da Biologia Molecular, administrado pelo professor Eduardo Castan. Em uma dessas videoaulas, ele divulgou sobre a edição aberta do Prêmio Jovem Pesquisador Promega. Como eu já utilizaria produtos da Promega e meu trabalho tinha cunho inovador, minhas colegas me incentivaram e eu me inscrevi (detalhe: submeti nos últimos minutos que faltavam para fechar a inscrição, porque eu achava que fecharia no outro dia, mas deu tudo certo!).
[PB]: Como foi o processo de escrever o resumo do projeto para a inscrição no prêmio?
[Josiane]: Sempre é muito difícil explicar em poucas palavras um trabalho científico. Então, comecei a pensar em como eu conseguiria chamar atenção e divulgar meu trabalho de uma forma que fosse atrativa. Por isso, primeiro eu trouxe a problemática que temos com a bactéria S. pneumoniae: porque devemos estudar ela; o que ela causa; porque temos falha na vacinação. Depois eu linkei tudo isso com a importância de termos um modelo animal alternativo, como as larvas, em estudos intermediários, e o quanto isso pode reduzir o número de animais mamíferos utilizados na pesquisa científica, de forma fácil e promissora. E, por fim, eu descrevi todos os materiais que eu utilizaria da Promega para chegar ao meu objetivo.
[PB]: Como você preparou o seu vídeo de divulgação?
[Josiane]: Primeiro, estruturei o que eu precisava falar, depois pensei em como eu iria falar tudo aquilo em 3 minutos e reduzi de uma forma que ficasse de fácil acesso não só para cientistas, mas também para o público em geral. Eu iniciei o vídeo já com uma frase de impacto, tentando de alguma forma atrair meu público até o final. Também utilizei de uma didática que tivesse bastante imagens, montei as figuras e animações no próprio PowerPoint. Outra coisa muito importante que inseri no vídeo foi o charme do meu gato para chamar a atenção, porque afinal ninguém resiste a um gatinho fofo! (Eu juro que paguei ele com sachê e trouxe biscoitinhos dos EUA) (Risos) Mais um segredo sobre o meu vídeo: o fundo preto do vídeo é o fundo da minha cama! (Risos)
[PB]: Como você se sentiu quando ficou sabendo do resultado?
[Josiane]: Surpresa! Apesar de eu ter me dedicado muito para divulgar e angariar votos, eu tinha plena consciência de que eu estava concorrendo com gente grande, gente com trabalho tão bom e importante quanto o meu, eu sabia que seria uma disputa acirrada.
[PB]: O que mais te marcou na viagem aos EUA?
[Josiane]: Difícil escolher essa viu?! A viagem foi tão intensa, que costumávamos dizer que cada dia que passava equivalia a 5 anos de vida, de tanto que vivemos e aprendemos.
Mas, acho que entre tudo o que mais marcou é ter descoberto que existem lugares para ser ocupados por nós também, nós pesquisadores brasileiros… Sabe aqueles laboratórios impressionantes de filmes? Pois é, eles existem na vida real e tem cientistas felizes trabalhando lá, dá para acreditar? (Risos)
A Promega proporcionou trazer isso para a nossa realidade, abrir nossa mente, tirou um pouco daquela nossa frustração de pesquisador brasileiro que nunca sabe para onde vai depois que terminar um mestrado, doutorado ou pós-doutorado… Existem alvos que podemos mirar, e que são alcançáveis.
Finalistas da 1ª Edição do Prêmio em visita à sede da Promega nos EUA, em Junho de 2022
(Da esquerda para a direita: 1. Noemia Partelli Mariani – UNESP; 2. Rebeka Fanti – UNICAMP; 3. Marcos Regueira – UFPE; 4. Larissa Queiroz Pontes – UFC/Fiocruz-CE; 5. Dominique Rubenich – UFCSPA; 6. Josiane Trevisol – UFCSPA/UNIFESP; 7. Luiza Abdo – INCA; 8. Douglas Monteiro – UFRJ; 9. Thais Silva Pinto – UNESP) (Imagem: Promega – Divulgação)
[PB]: Gostaria de deixar algum recado para os colegas da biotecnologia que estão pensando em participar desse Prêmio?
[Josiane]: O primeiro e mais importante: Façam com amor e sejam vocês mesmos! Não tem como dar errado quando é com amor. Se dediquem para deixar o resumo de vocês o mais chamativo possível, não subestimem a pesquisa de vocês, mostrem o diferencial, tragam frases de impacto e sejam sempre transparentes. E independente de ganhar o prêmio ou não, invistam no inglês, a possibilidade de conversar e trocar ideias com pessoas de fora é um presente que vocês não devem menosprezar. E se você ainda não sabe inglês e por isso está com receio de submeter, submete com medo mesmo, mas não perde essa oportunidade! Eu também não falava praticamente nada de inglês até uns meses atrás, e foi ter ganhado o prêmio que me impulsionou a querer aprender mais e me ajudou a expandir esse idioma que muitas vezes parece nosso inimigo, mas não é.
Como participar do Prêmio Jovem Pesquisador Promega
Para se inscrever na 2ª Edição do Prêmio Jovem Pesquisador Promega, basta preencher o formulário e enviar o resumo, através deste link. Podem se inscrever alunos/pesquisadores nos níveis de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, e o vencedor ganhará uma viagem com tudo pago aos EUA para conhecer a sede da Promega em Madison, Wisconsin e participar de um congresso científico à sua escolha. As inscrições vão até o dia 14 de Agosto de 2022. Boa sorte!
Entrevista realizada em parceira pelas equipes Profissão Biotec e Promega.
Texto revisado por Bruna Lopes e Jennifer Medrades