Para muitos, o conceito de solo é entendido apenas como um suporte, onde fazemos nossas plantações e produzimos comida. Você pensa assim? Com esse pensamento, o solo aparenta ser algo inerte a ser explorado pelas práticas agrícolas, a fim de garantir nossos alimentos.
A engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi disse que “O homem é o que a terra, ou solo, faz dele, o que ele recebe através de sua alimentação”. O solo produz vida, olha só como ele é essencial! Já que ele é tão fundamental na nossa vida, é importante entendermos o que o solo é de fato. Será que são todos iguais? Vamos falar sobre isso neste texto!
O que tem no solo?
O solo não é homogêneo e sua composição e estrutura podem variar dependendo da região. Essa variação tem muito a ver com os processos que levaram à formação desse solo, e nisso entra a questão do clima, relevo, continentalidade e uma série de outros fatores. Só no Brasil existem mais de 10 tipos diferentes de solos de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos: os Latossolos, Argissolos, Neossolos e por aí vai. E ainda dentro de cada classificação podem existir subclassificações! É uma variedade muito grande.
Além disso, os solos possuem propriedades físico-químicas muito distintas. Do ponto de vista físico, podemos destacar dois aspectos muito interessantes, que são a textura e a estrutura do solo. Quando falamos em textura, nos referimos ao tamanho das partículas e as suas proporções no solo; partículas de argilas são as de menor tamanho, silte tem tamanho intermediário e a areia é a partícula de maior tamanho. A estrutura do solo está relacionada em como essas partículas se agregam, que é um fator muito importante porque influencia o comportamento da água e do ar no solo.
Do ponto de vista químico, destacamos os minerais e as moléculas que estão presentes nesse solo: cálcio, ferro, magnésio, alumínio, fósforo, entre outros. Os conceitos de fertilidade do solo foram consolidados com base nesses componentes químicos, porque são esses minerais que as plantas absorvem para conseguir se estabelecer no ambiente. Também há a questão do pH, que indica se o solo é ácido ou básico.
Mas além dos componentes físicos e químicos do solo, ainda existe um terceiro componente imprescindível. Estamos falando do componente biológico do solo.
A parte biológica do solo
A matéria orgânica é um constituinte essencial, considerado um componente químico, mas que possui uma ligação muito forte com a parte biológica do solo. Ela se origina da degradação de compostos orgânicos que caem no solo, como folhas, galhos, raízes de plantas mortas, animais mortos, etc. Essa matéria orgânica tem influência direta sobre a carga iônica do solo e também sobre o pH. E esses parâmetros determinam o quão facilmente a planta vai conseguir absorver os nutrientes minerais.
A degradação da matéria orgânica no solo passa por uma série de etapas até atingir o grau máximo de decomposição. Primeiramente, tem-se a atuação da fauna do solo. Ela pode ser dividida em macrofauna, onde se encontram os caracois, aracnídeos e minhocas, por exemplo; a mesofauna, constituída de pequenos artrópodes, como os colêmbolos; e a microfauna com animais microscópicos, como nematoides e protozoários. Com isso, a matéria orgânica é particionada por esses organismos cada vez menores.
Por fim, chegamos ao microbioma do solo, que é o conjunto de seres microscópicos que vivem em um determinado solo. Estima-se que um grama de solo contém mais de 10 mil espécies diferentes de microrganismos. Cerca de um bilhão de bactérias, 100 mil fungos, além de protozoários e algas. Esses microrganismos realizam diversas atividades, entre elas as etapas finais da degradação da matéria orgânica e quebrar as porções microscópicas de matéria orgânica em tamanhos ainda menores para absorção. Quando a matéria orgânica chega em seu grau máximo de decomposição, dizemos que ela se tornou húmus.
A composição da biota do solo também se altera, tanto em função do tipo do solo, como em função do clima. Então, a forma como a matéria orgânica é degradada também pode ser diferente em cada região. Em lugares de clima mais quente a degradação ocorre mais rápido, por exemplo. No aspecto físico do solo, esses microrganismos produzem moléculas cimentantes que ajudam na agregação do solo, melhorando ainda mais a retenção de água.
A interação dos microrganismos com as plantas
Ainda existe uma outra dinâmica biológica que acontece no solo, que envolve uma interação entre os microrganismos e as plantas. As plantas liberam moléculas que atraem microrganismos específicos no solo para mais perto dela. Tais microrganismos vão colonizar uma região bem próxima às raízes que é conhecida como rizosfera. Cada planta seleciona seus microrganismos específicos do solo, então a diversidade de plantas resulta em diversidade de microrganismos.
Em geral, a planta fornece carboidratos que ela produziu com a fotossíntese, enquanto os microrganismos auxiliam o desenvolvimento dessa planta por meio de diversos mecanismos. Entre eles, podemos citar a fixação biológica de nitrogênio, a solubilização de fosfato, a produção de hormônios vegetais, o aumento da resistência da planta contra patógenos, a falta de água, as temperaturas elevadas, e inúmeros outros.
Biotecnologia e o solo
Existem muitos estudos sobre a elaboração de produtos contendo microrganismos que promovem o crescimento de plantas. Esses produtos são chamados de inoculantes e o Brasil é um exemplo mundial de excelência nesse tipo de tecnologia. Nós economizamos mais de 15 bilhões de dólares anualmente ao substituir fertilizantes químicos contendo nitrogênio por essas bactérias que fixam o nitrogênio.
Além dos inoculantes, outros exemplos de produtos biotecnológicos para o solo são os biodefensivos (que visam substituir o uso dos defensivos químicos) e os biofertilizantes.
Plantas captam inúmeros nutrientes do solo. #Paratodosverem Foto mostra uma travessa com vasos em forma de quadrado, com pequenas mudas crescendo neles. Fonte imagem: Markus Spiske on Unsplash
Existem outros tipos de produtos, como repositores e ativadores de microbiota, que prometem recuperar a microbiota de um solo sem biodiversidade ou estimular os microrganismos já existentes no solo. Esses repositores funcionam como um consórcio contendo vários microrganismos, o que pode dificultar o controle preciso sobre o padrão de qualidade do produto, sua eficiência e modo de ação.
Nota-se que os produtos biológicos requerem cuidados com os possíveis impactos ambientais que eles podem causar; dependendo do microrganismo utilizado no solo, ele pode causar alterações custosas de se reverter no ambiente. Por isso que as indústrias de produção de inoculantes devem procurar profissionais que entendam sobre cultivo de microrganismos em larga escala, mantendo-se um padrão de qualidade e pureza do produto. Essas habilidades são dominadas por microbiologistas e, principalmente, biotecnologistas!
No solo, tudo se conecta
O solo é vivo e possui uma dinâmica fabulosa. Conservar o solo é conservar a vida. Além das práticas agrícolas convencionais (rotação e sucessão de culturas e sistema de plantio direto, por exemplo), a manipulação do componente biológico do solo é um método promissor para nutrir e preservar a qualidade do mesmo.
Começamos a entender o solo não como um suporte inerte, mas sim como um sistema dinâmico e complexo. Entender esse dinamismo nos permite produzir alimentos com mais qualidade preservando o ambiente.
Lembre-se: Solo sadio, planta sadia, ser humano sadio.
Cite este artigo:
FRANCA, L. V.; & RODRIGUES, T.F. Microbioma do solo: dinâmicas e funcionamento da terra que cultivamos. Revista Blog do Profissão Biotec, v.8, 2021. Disponível:<https://profissaobiotec.com.br/microbioma-do-solo-dinamica-funcionamento-da-terra-que-cultivamos/>. Acesso em: dd/mm/aaaa.
Referências
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EMBRAPA. Soils in Brazil. Disponível em: https://www.embrapa.br/en/tema-solos-brasileiros/solos-do-brasil. Acesso em: 10 jun. 2021.
PRIMAVESI, A. M. Manual do solo vivo – solo sadio, planta sadia, ser humano sadio. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 205 p., 2016.
SANTOS, M. S.; NOGUEIRA, M. A.; HUNGRIA, M. Microbial inoculants: reviewing the past, discussing the present and previewing an outstanding future for the use of beneficial bacteria in agriculture. AMB Express. v. 9, p. 205, 2019.
WEIL, R. BRADY, N. C. Elements of Nature and Properties of Soil. 15ª ed. Harlow: Pearson Education Limited, 2017.
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